Quarta, 23 de Setembro de 2020
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Geral Santos Peres

JOTA FRANÇA – UM CONTADOR DE CAUSOS

(Minhas memórias/2009)

14/09/2020 14h21
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Por: A Estância
 JOTA FRANÇA – UM CONTADOR DE CAUSOS
(Minhas memórias/2009)
JOTA FRANÇA – UM CONTADOR DE CAUSOS
Jota França morreu na última quinta-feira em Avaré, cidade que adotou para viver boa parte de sua vida, após perambular, principalmente pelo interior do Paraná, desde quando resolveu ser radialista.
A bem da verdade, nunca soubemos de sua vida pregressa. Acho que ninguém sabia... Ele era um extraordinário contador de histórias, mas da sua, notadamente do acidente que lhe ceifara uma das mãos e parte do antebraço, omitia detalhes.
Conheci Jota França assim que ele chegou a Rádio Avaré AM, por volta dos anos 80, para abrir a programação sertaneja, antes do sol raiar... Jotinha sabia tudo daquele universo, da vida dos artistas, das músicas... E, no gênero, tinha bom gosto, valorizando o que denominamos de música raiz. Gostava da viola do Tião Carreiro. Quem não?
Trabalhamos na mesma empresa durante um bom tempo e nos víamos quase que diariamente, já que ele, além de ocupar os microfones também “vendia anúncios”. E como vendia! Chamava atenção a fidelidade de seus anunciantes que o acompanhavam de uma para outra emissora, em sua eterna peregrinação. A Casa de Moveis São Benedito – para ficar num exemplo – esteve com ele desde o seu primeiro programa em Avaré.
A empatia de Jota com o público era uma coisa fantástica. Recebia dezenas de cartas semanalmente, de pessoas simples, pedindo músicas, encomendando abraços, pedindo atenção... Carinhoso e respeitoso com todos. Colocava-se no lugar do ouvinte, num segmento que dominava com maestria.
Jota tinha uma característica que o fazia diferente e bem melhor do que qualquer um de nós naquele e ainda nestes tempos: a espontaneidade! Estar num estúdio ou na mesa de um bar tomando “uma branquinha” com os amigos era a mesma coisa. Dizia o que lhe vinha à cabeça. Não tinha peias, não se prendia em amarras.
Nunca vi alguém tão autêntico, mesmo quando inventava aquelas histórias deliciosas, quando contava piadas sem graça... Ninguém se ofendia com o seu politicamente incorreto... Porque não havia maldade. Era o seu jeito. Seu inacreditável jeito de encantar a todos.
Houve uma época em que andava cabisbaixo, fazia seus programas sem muito entusiasmo. Andava chateado com as agruras da vida. Foi tentar a sorte em outras praças, mas o mercado não o favorecia mais. Pensava até em desistir, em arrumar outra ocupação, desiludido com a profissão.
Foi na Rádio Paulista, porém, num programa de madrugada, que ele reencontrou a alegria ao microfone. Quase que uma volta àquele passado da Rádio Avaré, quando desembarcou em nossa cidade trazendo um jeito diferente de fazer rádio e na bagagem muitas, muitas histórias para contar.
Na Paulista Jotinha fez durante um bom tempo, acho que das quatro as seis, o seu melhor programa, muito porque a potência da emissora levava sua voz para muito longe... Ele gostava de dizer que estava falando para o seu Paraná... Foi, talvez, a sua melhor fase.
Jota França foi um artista! Um homem que foi muito, mas muito melhor, enquanto radialista, do que muitos imaginam. Acho que nem ele próprio sabia do seu valor. Um valor que podia ser medido pelas cartinhas simples, escritas por pessoas humildes que se encantavam com a sua fala, que viam nele o representante daquele universo tão brasileiro.
Jota foi embora e nos deixou uma grande dúvida: quem seria ela, aquela que só para ela ele mandava o seu beijo de despedida, naquele tradicional encerramento de programa? Não! Não nos interessa saber, que, na verdade, para ele, todos os seus muitos ouvintes eram especiais...
Jota França fazia rádio brincando, e por isso era um profissional sério.
(Santos Peres – Jornal “A Voz do Vale” – Janeiro de 2009)
José Carlos Santos Peres
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