Transamérica
Crônica

A PAREDE É DA LAGARTIXA

José Carlos Santos Peres...

José Carlos Santos Peres

José Carlos Santos PeresEspaço do Jornalista e escritor José Carlos Santos Peres

11/02/2020 18h14
Por: A Estância
348

Crônica

A PAREDE É DA LAGARTIXA

José Carlos Santos Peres

Com três meses de uso o condicionador de ar de um cidadão, residente em Florianópolis, pifou. Consultada, a empresa vendedora recusou-se a consertá-lo, gratuitamente, alegando que o defeito resultara da imprudência de uma lagartixa que adentrara pelo equipamento e fizera o motor parar de funcionar.

O caso foi ao Juiz Alexandre da Rosa, da Primeira Turma de Recursos da Capital, que decidiu a favor do consumidor, dizendo: toda lagartixa tem o direito de circular pelas paredes das casas à cata de mosquitos e outros pequenos insetos que constituem sua dieta alimentar. Todo mundo sabe disso e certamente também os engenheiros que projetam esses motores.

Concordo com a decisão. De fato uma lagartixa, seja ela qual for, tem todo o direito de ir e vir pelas paredes de nossas casas, assim como o Condor tem todo o direito de planar pelo céu das cordilheiras.

Ademais, o animalzinho é completamente inofensivo, presta
relevantes serviços ao equilíbrio da natureza e à nossa tranquilidade, já que devora insetos que nenhuma Associação ousa proteger, tão maléficos são, como aranhas, mosquitos e tudo o mais que se infiltra e despeja pelos cantos de nossas casas seus ovos e suas crias venenosas.

Uma boa lagartixa garante a limpeza de nossas residências, sem cobrar nada pela faxina. Na minha há uma, a Dinorah Com Agá. De estimação! Aliás, toda casa deveria acomodar uma lagartixa, pelo menos. Dizem que traz sorte...

A Dinorah Com Agá é nossa já faz cinco ou seis anos. Em sua juventude era transparente e grudenta: circulava pelo teto deixando atrás de si uma linha gosmenta que refletia a luz do lustre. Era uma tetéia, tinha um rebolado de fazer “lagartixo” gemer sem sentir dor. Bonitinha demais, tipo assim Mariana Ximenes.

Hoje, a coitada, está totalmente enrugada, seus olhos perderam o brilho e quando ela me observa trabalhando no computador suas pupilas paralisadas parecem saltar em minha direção. Sei que quando partir para a morada das Lagartixas & Afins, o que deve acontecer muito em breve - expectativa de vida de lagartixa é de oito anos - muito provavelmente, de madrugada, quando eu estiver neste teclado nem ousarei olhar para o canto esquerdo onde parede e teto se juntam... Se o fizer, com certeza, darei com aqueles olhos de vidro escancarados para o meu lado.

A minha lagartixa mal se garante nas pernas. Às vezes a observo tentando ir ao lustre onde os pequeninos insetos se aglomeram. É uma tortura. Pela parede ela circula com desenvoltura, mas de cabeça para baixo a dificuldade é imensa. Daí os tombos espetaculares: mergulha no vazio gesticulando todas as pernas, tentando se agarrar em alguma coisa, gritando por socorro... Mal se esborracha no chão sai claudicando, envergonhada, em busca de um canto qualquer para se recuperar.

Confesso que um dia – faz tempo isso – incomodado com a presença da bichinha armei-me com uma vassoura. Fui à luta, forçado pela esposa que, após muito insistir, lançou mão daquele mantra que toda mulher usa para colocar o homem contra a parede: eu ou a Dinorah Com Agá... Você decide! Entendi, num breve exercício de matemática, que eliminar a lagartixa sairia mais em conta.

A mulher, à porta, sobre uma cadeira: mais à esquerda, à sua direita; esquerda, direita, esquerda... Ataca! Defende! Seja homem, homem de Deus...

E a vassoura nas paredes, no teto, lustre, piso; nas paredes, no teto, lustre piso... Até que a imagem de Santa Catarina, ao receber uma vassourada projetou-se – foi projetada - do armário para, por sorte, acomodar-se ao sofá. A queda foi um sinal: estaríamos para cometer um pecado à criação divina.
Como herança, herdamos de Dinorah Com Agá, carinhosamente apelidada de Zoiúda, um pedaço do seu rabo. No desespero o bicho solta uma parte de si, no caso a traseira, para iludir o predador, enquanto ganha tempo para se safar. Apertou ela dá o rabo, literalmente.

Então, recolhi aquele pedacinho orgânico, inexplicavelmente mexendo-se, e fi-lo (urgh!) desaparecer no vaso do banheiro... Hoje, com certeza, temos mais um jacaré no pantanal.

Agora, com a decisão do juiz de Florianópolis, fiquei até mais amigo da Zoiúda. Sei que ela tem direitos jurídicos, indiscutíveis. Ontem mesmo, na hora de ir dormir, deixei a luz do escritório acesa para a bichinha zanzar à vontade pela minha parede... Digo melhor: pela parede que a ela pertence, que aqui em casa somos apenas inquilinos.

Eduvale
Municípios
One Center
Últimas notícias
Mais lidas