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Crônica

MINHAS MEIAS

José Carlos Santos Peres

José Carlos Santos Peres

José Carlos Santos PeresEspaço do Jornalista e escritor José Carlos Santos Peres

11/01/2020 18h54
Por: A Estância
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Crônica

MINHAS MEIAS 

José Carlos Santos Peres

O lusco-fusco inibe as luzes da cidade, sob chuva. Poucas pessoas pelas calçadas, encurraladas pela garoa. Não faz muito eu conseguia uma média de 10 quilômetros/dia, num andar bastante agressivo. 

Aí, estourei a panturrilha... 

Voltei, pisando em ovos. Mas daqui a pouco retomo minha quilometragem, da qual pretendo fazer uns três ou quatro quilômetros correndo. 

Correndo é força de expressão, que no meu caso um trotar mais solto já é o bastante para me tirar o fôlego.

Dizia de caminhada na quase noite. Faço-a sem maiores preocupações, a não ser a de limpar os óculos seguidamente, em decorrência da neblina. 

No mais, me perco pelas calçadas esburacadas desta Avaré de muita festa e pouco trato, sendo surpreendido aqui ou ali por algum senhor de guarda-chuva; um ou outro gato pingado em busca do seu norte, alguma bicicleta em ziguezague pelas poças.

Em casa, pensando num banho quente dou com a família. Às vezes coincide de todos estarem num mesmo lugar ao mesmo tempo. Então alguém observa minhas meias e faz o alerta geral:

- Pô, não viu que suas meias são amarelas?

- E daí? 

- Daí que é de muito mau gosto!

Sou a mulher barbuda, o gorila gigante, o atirador de punhais, o engolidor de fogos, o Deyverson da nove. 

Sou o Homem das Meias Amarelas!

Blasé, num ascetismo que até Epicuro invejaria digo apenas que o ridículo não está no fato de alguém usar meias amarelas, até porque não consta na Bíblia, na Constituição, no Código de Postura do Município ou nas regras claras da Damares a cor ideal para qualquer vestimenta.

Ridículo, se ridículo fosse, arremato – agora deixando o ascetismo de lado e tomando daquela frieza vingativa de meus ancestrais da Andaluzia - estaria em quem num determinado momento pensou ser eu merecedor destas meias.

Pronto! Estabeleci a discórdia no debate. House of Cards direto na veia.  Um olhar de acusação/indagação partiu de um para o outro: quem teria atirado em Odete Roittman? 

No caso, quem teria tido a infeliz ideia de presentear o Zé com um par de meias naquela cor?

Na verdade, meias que comprei numa pracinha em Itumbiara... Ou teria sido em Anápolis? Trindade? Morrinhos? Numa cidadezinha qualquer dessas andanças que faço por aí.

Acho que foi em Goiânia, quando lá estive para um prêmio literário. De uma moça extraordinariamente loira, Meu Deus! De olhos extraordinariamente azuis, Meu Deus! De uma beleza Charlize Theron dos pobres mortais.

É... Nem sempre é possível buscar na memória uma barraca de beira de estrada que vende meias amarelas se nela alguma sereia desgarrada de seu mar entoar um canto de sedução a esses pobres e infelizes mortais que somos.

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